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sexta-feira, 4 de julho de 2014

França x Alemanha

Embarcando nas ondas da copa do mundo de 2014, após assistir o jogo da Alemanha, o único que desperdicei duas horas para ver até este momento, decidi relembrar aqui os motivos que me fizeram assistir a este jogo...

Luís XIV vs Frederico II (ainda Prússia)

Napoleão III vs Otto Von Bismarck

Charles de Gaulle vs Adolf Hitler

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Os dois países mantém disputas entre si por séculos.
Há quem diga que os problemas começaram muito antes de os dois países se formarem, como os conflitos entre celtas e germânicos e há quem diga que primeiro, teve de haver a existência desses dois países para que enfim, existissem conflitos.
Não sou ninguém para julgar a questão de celtas e germânicos, visto que nunca estudei o assunto, porém, pela carga de estudos sobre história, tenho de discordar que primeiramente foi necessária a existência desses países para que houvessem conflitos.
Antes de a unificação alemã, o povo germânico já disputava por espaço no mapa europeu. Era um povo, que possuía língua e cultura iguais e que já possuía vontade própria.
Não à toa, Napoleão III buscava sempre apoiar a Áustria contra a Prússia, em um joguinho de falsos apoios à Prússia, desde que favorecessem seu interesse, mas no fundo, ele temia a grandiosidade desse Estado próximo às suas fronteiras.
Na verdade, até o século XVI, a França estava preocupada com o Atlântico e sua maior rival, a Inglaterra, enquanto os Estados alemães se preocupavam com a Itália e os Balcãs. Como os Estados alemães possuíam desavenças internas, a França apenas assistia como mediadora e buscava extrair alguma porção territorial em meio aos conflitos.
Falando em territórios, eis que surge a famosa disputa por Alsácia e Lorena, territórios pequenos situados nas fronteiras entre os Estados alemães e França, mas que possuíam grande importância mineral.
Entre 1618 e 1648 ocorreu o primeiro grande problema entre estes rivais seculares. A chamada guerra dos 30 anos teve como causa inicial as diferenças religiosas entre católicos e protestantes dentro do território alemão, trazendo o restante da Europa para o conflito. A França saiu como vitoriosa e com a Alsácia anexada ao seu território.
No século seguinte, a França conseguiu anexar Lorena e se estabeleceu às margens do rio Reno. Neste momento, a França crescia enquanto a Alemanha tentava se reerguer em cima de calcanhares feridos.
Ao longo do século XVIII, a Prússia se tornava um Estado alemão grande o suficiente para disputar espaço com a Áustria.
Na verdade, a França sempre teve a ver com a formação do Estado alemão.
Durante a guerra de sucessão austríaca, entre 1740 e 1748, a França apoiou a Prússia contra a Áustria. Mais tarde, na guerra dos Sete Anos, entre 1756 e 1763, a mesma França que apoiou Prússia, se juntou contra a mesma, ao lado da Áustria.
A Revolução francesa foi motivo para que Prússia e Áustria se unissem contra a França, derrotando-a na Batalha de Leipzig, em 1813. Cabe salientar que em 1812, Napoleão Bonaparte já havia sido enfraquecido pelo inverno russo, mas claro, ainda assim, uma vitória.
O jogo começou a virar a favor da Alemanha quando, com o Congresso de Viena em 1815, a Prússia ganhou territórios, dobrando praticamente sua população e quando, a França deve de aceitar as condições, voltando ao seu tamanho original, antes das batalhas napoleônicas.
A situação melhorou ainda mais, poucos anos depois, quando o general Otto Von Bismarck, se tornou o chanceler prussiano.

Nascido em meio ao Sistema de Metternich, onde havia na Europa um equilíbrio entre forças prussianas e austríacas, que balanceavam muito bem o chamado Concerto Europeu, um sistema de alianças baseado nos valores conservadores. Mas para Bismarck, que enxergava a Prússia como o maior Estado alemão, isso não era mais suficiente.
Um homem conservador, mas flexível. Isso que o fez um grande homem na história. Ele sabia ajustar a política exterior aos interesses internos germânicos. Habilidoso, soube manter em silêncio suas verdadeiras intenções, a fim de atingir seu objetivo de unificar o território alemão sob comando prussiano.
Além de sua sabedoria, ele contou com o brilhante momento em que a França estava sob liderança de um homem menos sábio que ele: Napoleão III, facilmente provocado pois gostava mais de se exibir para a mídia do que em ter inteligentes atos sob seu comando.
Bismarck não queria que a Prússia dependesse somente da Santa Aliança, mas sim, de muitas alianças que cercassem todas as possibilidades de um fortalecimento prussiano.
Além das suas habilidades, Bismarck teve o apoio das condições externas. A Grã-Bretanha estava preocupada não somente com seu império, mas também, com o equilíbrio geral de poder. A Rússia estava pressionando simultaneamente a Europa Oriental, a Ásia e o Império Otomano. A França tinha em suas mãos um novo império, as ambições na Itália e uma aventura no México e a Áustria se preocupava com Itália e com os Balcãns, e com seu papel dirigente na Confederação Germânica.
Bismarck sabia que a Prússia não era tão vulnerável quanto a Áustria ao expansionismo francês. Quanto mais a Áustria temia Napoleão, mais concessões ela tinha de fazer à Prússia.
Ele sabia que a Realpolitik não podia estar associada à uma ideologia. Daí, sua flexibilidade.
A Realpolitik de Bismarck queria destruir o conservadorismo de Metternich, que impediam uma unificação alemã.
Para Bismarck, a Áustria não era essencial para o equilíbrio europeu, como pensava Metternich.
"A Prússia não se engrandeceu mediante o liberalismo, nem graças à liberdade de pensamento, mas por uma sucessão de regentes poderosos, decididos e sábios que administravam minuciosamente os recursos militares e financeiros do Estado e o mantiveram em suas mãos para desejar-los, com muito valor, na balança da política europeia enquanto se apresentou uma oportunidade favorável." Kissinger.

Bismarck tentou liderar a Alemanha então, com a força, e não com valores universais.

Enfim, diante de toda essa conjuntura externa e de toda a esperteza de Bismarck, a Alemanha de unificou e humilhou a França.
Napoleão III se sentiu muito mal quando a Alemanha não reconheceu um representante francês em seu Estado e então, declarou guerra à Prússia. Mas o que Napoleão III não esperava, era que a Áustria juntaria suas tropas com Prússia em caso de ameaça externa. E assim, a Alemanha se unificara.
Afinal, meus queridos, juntando as forças armadas, falando a mesma língua e tendo a mesma cultura, o que seria isso senão um Estado.
A coroação do Kaiser Guilherme I, da Prússia, se deu na França, na sala dos espelhos do Palácio de Versalhes. Resultado: revanchismo francês.
A vitória alemã na guerra franco-prussiana fez com que a Alemanha recuperasse boa parte de Lorena e toda a Alsácia, além de retirar um bom dinheiro da França para si.

A partir daí, o circo já estava armado para a Primeira Guerra Mundial, com muitos barris de pólvora.
A Alemanha passava a buscar mercados, visto que chegou atrasada na corrida imperialista, causando extremo desconforto aos grandes países já existentes, visto que seu crescimento decolou rapidamente.

Como potência perdedora da primeira guerra, a Alemanha sentiu na pele o revanchismo semelhante ao que a França sentiu ao final da guerra franco-prussiana. O Tratado de Versalhes foi punitivo e não semeou a paz, mas sim, a revolta.
Na Segunda Guerra Mundial, as potências começaram a caminhar para um diálogo, que foi de longa discussão, porém, França só reconheceu a soberania alemã em 1955.

Atualmente, Alemanha e França ainda discordam sobre questões políticas, mas uma nova guerra entre os dois países parece ser algo impossível hoje em dia.
Dentro da cultura de cada povo, ainda deve existir entre os mais idosos um certo receio, mas acredito que não deva ser nada de mais.
Ambos são países essenciais para a história do mundo.
A França, com a Revolução Francesa, lançou sobre o mundo os valores universais da Idade Moderna e a Alemanha... bem... a Alemanha...
"Bismarck edificou tão bem a Alemanha, que esta sobreviveu à derrota em duas guerras mundiais, à duas ocupações estrangeiras e à duas gerações como um país dividido." Kissinger
E eu acrescento que hoje é a terceira maior economia do mundo e líder na União Europeia.

Digamos que é o país com maior capacidade de se reerguer do mundo.

Uma frase que sempre repito, porque é genial, é que "A Alemanha sempre foi grande demais, ou pequena demais para a Europa." Kissinger.

Parabéns à vitória alemã nesta copa e, com toda minha admiração pelos dois países em campo, sinto o calor alemão em mim. Que vença a copa!
O Brasil já ganhou demais. Nosso país precisa melhorar em muitos aspectos antes de se esquecer da política para pensar em futebol.